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O Manual do Arqueólogo Digital: um framework para extrair a memória do negócio

  • Writer: Elton Ventura
    Elton Ventura
  • 2 days ago
  • 2 min read
Ilustração de dois robôs de IA analisando camadas de sistemas legados, usando uma lupa e um tablet para examinar dados ocultos, representando a extração da memória do negócio no processo de modernização de sistemas.


Se sistemas legados são a “Memória do Negócio”, a principal tarefa de um time de modernização é a extração. Essa memória não está em um documento moderno de requisitos; ela precisa ser escavada nas camadas da operação existente.




Fase 1: Forense de Código (o “O quê”)



Objetivo: Identificar as “cicatrizes” na lógica que representam regras de negócio ocultas.


Sinalize constantes “irracionais”: Procure por magic numbers no código. Um multiplicador fixo como 1,042 raramente é um erro; geralmente é um cálculo específico de imposto ou compliance, nascido de uma crise histórica.


Rastreie as exceções: Identifique os ramos IF/ELSE que tratam casos de borda. Em sistemas legados, essas “bordas” costumam representar os clientes mais importantes ou as jurisdições regulatórias mais complexas.




Fase 2: Etnografia do Usuário (o “Como”)



Objetivo: Descobrir o “Sistema Sombra” que vive fora do software.


A “Investigação Contextual”: Observe um usuário avançado sem interromper. Anote cada vez que ele consulta um post-it, abre uma planilha paralela no Excel ou sobrescreve manualmente um resultado.


A entrevista do “Por quê”: Ao identificar um workaround, pergunte: “Quando você começou a fazer isso?” Isso revela Traumas Institucionais — falhas passadas que o processo atual foi desenhado para evitar, mesmo que o software não evidencie isso.




Fase 3: Arqueologia de Dados (o “Resultado”)



Objetivo: Ver o que o sistema realmente produz versus o que deveria produzir.


Auditoria de mau uso de campos: Procure campos usados de forma indevida (por exemplo, um campo “Observações” usado para armazenar “Data de Vencimento do Contrato”). Isso mostra onde o negócio superou o esquema original do software.


Mapeamento de dependências a jusante: Rastreie para onde os dados vão depois que saem do sistema. O legado pode estar fazendo “trabalho silencioso” para áreas (como Auditoria ou Analytics) que não estão na lista oficial de stakeholders.




Fase 4: O Livro-Razão da Memória (o Entregável)



Antes de escrever novo código, categorize os achados em um Livro-Razão da Memória:


  • Memória Essencial: Lógica de alto valor que precisa ser portada (ex.: a particularidade de faturamento do “Grande Cliente X”).

  • Rituais Redundantes: Processos exigidos por limitações antigas de hardware (seguros para descartar).

  • Workarounds Ativos: Tarefas manuais que devem ser totalmente automatizadas na nova versão.

  • Dívida Legada: Erros reais ou ineficiências que não agregam valor ao negócio.




A modernização dá certo ou errado antes que qualquer novo código exista. Times que reconstroem sem extrair a memória do negócio não modernizam — amputam. O Livro-Razão da Memória é o ponto de controle que separa continuidade de ruptura, deixando claro o que deve sobreviver, evoluir ou ser descartado. Sistemas legados são história comprimida: decodifique-os com rigor e a modernização preserva o negócio; ignore-os e você o apaga.

 
 
 
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